sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

(02) O secretário

- Mônica, o que acha...? - tentou perguntar-me o secretário do Dr. Amorim.
- Não posso, desculpe. - interrompi.
- Só ia te convidar para um café depois do trabalho.
- Não vai dar, mesmo. - procurei uma desculpa qualquer, mas não sei mentir direito.
- Amanhã, então? - fitou-me, esperando por uma resposta positiva.
- Olhe, moço...
- Pablo.
- Então, Pablo, é muito gentil da tua parte, mas acho melhor não.
- Ok, tudo bem. Desculpe incomodar. - deu-me às costas.

Permaneci ali, observando-o, estarrecida com o meu mal comportamento. Reparei que o terno dele era com risca de giz, quase sob medida, de muito bom gosto. As horas passavam e eu mal podia conter minha vontade de saber o que Pablo queria comigo.
Senti-me péssima pela maneira como tratei o rapaz, até porque ele sempre fora gentil comigo. Logo eu que nunca soube dizer 'não' às pessoas. Como pude ser tão cruel? Está bem, não foi crueldade. No entanto, quantas vezes eu disse 'não' naquela conversa que sequer durou trinta segundos? Três vezes? TRÊS vezes. Meu Deus! Um 'não' a cada dez segundos, em média. Foi maldade sim. (Preciso de terapia, urgente!)
No dia seguinte, Pablo atrasou-se uns 10 minutos, com terno, rosto e cabelo molhados da chuva. Deu-me bom dia e sorriu, como de costume. Os olhos são castanho-esverdeados e o cabelo é castanho, um pouco mais escuro que o meu. Nunca me detive a esses detalhes.
A curiosidade continuava a me consumir (se faz necessário dizer que a curiosidade é um grande defeito meu?). Decidi que me retrataria com ele. Esperei que saísse para pagar contas, e deixei um bilhete em cima de sua mesa, junto com a papelada de um processo de inventário de bens, com os seguintes dizeres: "Saímos daqui às 19hs em ponto. Cafeteria da esquina." 
Fomos à cafeteria debaixo de chuva. Descobri que Pablo é bem menos reservado fora do escritório. O que ele queria comigo? Bem, primeiro de tudo, respirei aliviada ao saber da existência de sua namorada, Júlia. Não suportaria lidar com um relacionamento desse gênero no momento e também não queria dizer mais um 'não' ao moço.
Ele queria conversar com uma mulher mais cabeça-no-lugar (eu, cabeça-no-lugar? Ok.), pois sua sogra está com câncer e precisava de conselhos para conseguir dar apoio do modo correto à sua namorada. Fiz o possível, também não sei o que dizer a uma pessoa como encarar o câncer, além de que existem bons médicos e tratamentos eficazes.
Lógico que ele estuda Direito, está no último semestre, toca violão, gosta dessas músicas antigas como eu, mas prefere Rolling Stones a Led Zeppelin. Vai entender... Combinamos de um dia desses fazer um jantar para que ele possa me apresentar apenas sua namorada e sogra, visto que seus pais vivem em Santo Antônio da Patrulha.
Foi, de fato, um dia produtivo e exaustivo. Há muito tempo não socializava com alguém, e não me caiu pedaço algum.
Para concluir, Amélie e eu escutamos o LP Waiting for the Sun do The Doors, na esperança de que a chuva se vá amanhã.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

L'avenir

Traz receio e ansiedade
sem dó nem piedade.
Vez por outra surpreende,
positiva ou negativamente.

Aliás, sinto informar:
a segunda prevalece.
Não há como mudar,
não adianta fazer prece.

Custa tanto a chegar,
quando chega já é presente.
Passa; sequer fica para o jantar.
A satisfação almejada não se sente.

O futuro contorna
e sai de cena.
Se transforma
no passado que condena.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Não mais

Desaprendi a falar sobre o amor sem que isso me cause dor. Esqueci como é associar o romance com algo que não me faça te lembrar. Desacreditei, desiludi, desapeguei. Desapeguei? Não sei. Só sei que desse tal de amor prefiro passar a milhas e milhas de distância. Que ele cruze a esquina em frente à sorveteria da rua de baixo, mas não entre no meu quarto. Não mais.

domingo, 6 de janeiro de 2013

(01) Na Padaria, Apresentação, Mães


- Bom dia! Dois croissants de goiabada, por favor. 
- Você prometeu que começaria a fazer exercícios e que largaria essa vida de consumismo calórico, dona moça. O que será de você daqui alguns anos?
- Ora, que loucura! Se fizesse isso, perderia a grandiosa oportunidade de saborear a melhor massa folhada da cidade, caro amigo. - sorri.
- Modéstia à parte... - pigarreou - mas, não quero ter mais uma cliente gorda. - falou sussurrando para não ofender a senhora do caixa. 
- Pois saiba que só lamento por você. Tenha um bom dia.


O padeiro é quem me proporciona as risadas matinais. Não entendo como consegue ser simpático e sorridente às 7 da manhã, todas as manhãs. 
Que indelicadeza não me apresentar, mamãe me repreenderia. Pois bem, me chamo Mônica, tenho 20 anos, estudo Direito (por escolha da família, acabei aceitando por parecer garantir o futuro) e estagio em um escritório. Sonhava mesmo em estudar História ou Letras, ou ambos. Moro com meus vinis, livros e uma gata chamada Amélie (porém, não Poulain), no centro de Porto Alegre, nasci aqui. Minha mãe se mudou para Gramado  com minha irmã caçula, Anita, de 13 anos, tempos depois que me pai faleceu, há 2 anos atrás (particularmente, considero a apresentação entediante, pulemos).
Com tanto trabalho e estudo, estou sempre com a cabeça cheia, me preocupando com assuntos banais outros não tão banais assim, criando rugas desnecessárias. Quem me dera ser tranquila como o padeiro, mas só em pensar na roupa social, salto alto, nos casos a serem estudados, nas provas, trabalhos e projetos, nas audiências por assistir, papéis e mais papéis, contas a pagar... já cansei. Apenas aguardo ansiosamente chegar em casa, escutar um LP qualquer, o ronrom da gata, colocar os pés de molho em água morna e tomar um chá de maçã com canela, observando o céu nublado, porque hoje o dia está tão cinza quanto o centro da cidade. Dias de outono não deveriam ser assim.
Talvez você esteja se perguntando "onde está o romance?". Detesto decepcioná-lo, prezado leitor, entretanto não há um Eduardo para esta Mônica, o mais próximo disso é quando Anita vem pra cá nas férias para poder enviar atualizações completas da minha vida à mamãe. 
Mães, elas nunca acreditam se dizemos que está tudo bem, precisam investigar até obterem respostas satisfatórias. E, na verdade, nunca está TUDO bem, é impossível ficar tudo bem no mundo-selva em que vivemos. Mães sabem disso, sempre sabem. Sinto falta de tê-la por perto, do seu colo quando a vida decepcionava.