terça-feira, 30 de abril de 2013

(05) Futuro do Pretérito



        Ouvi um barulho de chaves e a porta se abrindo.
- Mônica, cadê você?
Eu estava no nosso quarto, sentada na cama, comendo morango com chantilly como se não houvesse o amanhã, vestindo aquela camiseta dos Beatles que lhe dei como presente de namoro e você se negava a usar por ser branca, ou ao menos era o que me contava. Me abraçou como todos os dias com o carinho natural e costumeiro dizendo que havia sentido saudades.
- Como foi o dia? - indaguei.
- Podemos não falar sobre isso? - disse, demonstrando exaustão no olhar. - O que importa é que cheguei em casa.
- Pare com isso! Vai me assustar. E me conte como foi o dia.
Deitou-se no meu colo e suspirou, dizendo:
- Aquele setor está cada vez pior, o chefe pegando no pé, os colegas cuidando a vida dos outros, etc e tal. Mas, você sabe, não posso largar tudo de mão, dia 5 as contas estão aí de novo...
A partir de então apenas percebia os movimentos dos seus lábios, não por desinteresse, porém preferi dar atenção às muitas rugas que sempre se formavam na sua testa quando você ficava preocupado com esses assuntos da vida adulta, eu tentando desmanchar as dobras da testa com os dedos em movimentos leves, disse que tudo ficaria bem, já havíamos passado por fases piores. Você consentiu e prometeu que procuraria um emprego melhor. Eu gostaria de ter algo decente para responder, assim como você costumava me acalmar e cuidar de mim quando eu surtava, mas você sabe fazer isso tão bem e eu não tenho esse dom.
Permanecemos pois, silenciosamente, por horas. Até que um de nós ou ambos adormeceu. Recordo-me vagamente de acordar com dor no pescoço por ter dormido de mal jeito e você já estava ali me observando:
- Preciso ir trabalhar, te amo.  - deu-me um beijo na testa, outro nos lábios e retirou-se; sem esperar resposta alguma por já ter aceitado o fato de eu ter medo de me entregar fácil, mesmo que passem-se décadas que estamos juntos.
Confesso: quis responder, dizer que o amo também, mas não pode ser amor, amor é difícil, é estranho, é confuso. O que sinto é leve e tranquilizador. E acreditar no amor nunca me pareceu fácil. Pelo contrário, fugia dele como os gatos fogem da água. Só que quando um sentimento - tenha ele o nome que for - é maior do que qualquer receio? E quando este nos dá segurança e vontade de caminhar de mãos dadas com uma única pessoa até o fim de tudo? E quando nos traz paz ao invés de inquietação? É possível fugir quando o Universo aparenta conspirar a nosso favor?
Prometi que essa seria uma das muitas vezes que minha certeza de que você sempre foi a pessoa certa pra mim fosse reafirmada. Também que jamais esqueceria da sua voz e do seu cheiro, menos ainda do seu beijo e de como seu olhar se dirigia a mim.
Apesar de tudo, dizer um "eu te amo" nunca me pareceu o suficiente para explicar. O "eu te amo" é tão plástico e banal... Para conseguir expressar a vontade que eu tinha de te ter sempre por perto, não importava se estivesse chovendo ou com sol, fazendo frio ou calor. Não importava se fosse na Redenção, no Marinha, assistindo o Pôr-do-Sol ou na Groenlândia. Somente a certeza de que eu te teria ali, nas minhas mãos, me encorajava  a enfrentar o trânsito das 7 da noite ou até dormir sem meias no frio de agosto.
Inclusive naquele feriado frio, escuro e ventoso no qual de repente deixamos nosso filme e pipoca de lado para pegar a freeway sem destino, embora todos estivessem retornando da praia e ter dado tudo errado no final, nada poderia ter me feito mais feliz do que a tua companhia.
O que temos agora? Lembranças, lembranças do que há de vir.